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Repassar os serviços do Estado à iniciativa privada não é a solução

Museu Nacional em chamas | Foto: Alexandre Brum/Agência O Dia

Museu Nacional em chamas | Foto: Alexandre Brum/Agência O Dia

A trágica maneira como o Museu Nacional do Rio de Janeiro foi “incinerado”, no último 2 de setembro, escancara aos olhos do mundo o descaso com a cultura e a ciência por parte da burguesia e de seu Estado. Cada vez se tornam mais escassos para os jovens filhos da classe trabalhadora a possibilidade de acesso à ciência e aos espaços de memória.

Por muito tempo, os museus foram lugares destinados ao deleite das elites e constituíam-se nos chamados gabinetes de curiosidades recheados de toda sorte de artefatos, animais empalhados e obras de arte, advindos de saques, espólios de guerra, presentes e doações.

Após a segunda guerra mundial e, mais tarde, durante a abertura política na década de 1970, os museus enquanto lugares de memória passaram a ser reivindicados, disputados e ocupados por outros grupos, que queriam ver-se inseridos na história. Judeus, negros, indígenas, migrantes, imigrantes e perseguidos políticos tiveram suas memórias pela primeira vez expostas aos olhos do mundo.

As gerações que se seguiram estabeleceram outro tipo de relação com esses lugares e o contato com áreas da ciência muito distantes do cotidiano, até então, passaram a se tornar parte do repertório de muitas crianças e jovens. Daí o papel fundamental do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Junto a algumas dezenas de museus no Brasil – entre eles o Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville – ele popularizou a arqueologia, a paleontologia, a antropologia física, a etnologia e a museologia, oferecendo ao público por meio da educação patrimonial, as lentes de uma infinidade de disciplinas, que ajudam a perceber a sutileza dos sentidos das coisas no mundo.

O que queimou na noite de 2 de setembro foi parte dessa luta dos trabalhadores dessas instituições, em tornar esses espaços acessíveis e atraentes a ponto de influenciar milhares de jovens a seguirem carreiras voltadas às ciências e às artes.

Junto com o desaparecimento de Luzia, a ancestral mais antiga das Américas, perde-se todo o trabalho de pesquisa organizado e financiado pelo Estado e realizado por servidores de carreira em sua maioria. As cinzas nem tinham esfriado ainda e o ministro da Educação declarou que “tão estratégico como a recuperação do museu, é a mudança do modelo de gestão”. Ao criticar o atual modelo de gestão dos museus públicos, o ministro explicita a lógica da descentralização da ação estatal, abrindo espaço para o engodo das Organizações Sociais.

Esse modelo é uma iniciativa copiada pelo governo neoliberal de FHC de um programa britânico de Margaret Thatcher da década de 1970, que trata da gestão de um bem a serviço público pela iniciativa privada e é uma das facetas da lógica do Estado mínimo. Com a dispensa de processo licitatório, a organização social é um buraco negro para o dinheiro público. Além disso, precariza as relações de trabalho, na medida em que deixa de realizar concursos e paga salários mais baixos, terceirizando serviços irrestritamente e desrespeitando os princípios básicos que regem a administração pública.

Nesse cenário de desmonte, não só o futuro do Museu Nacional do Rio é extremamente incerto, mas o de todos os museus públicos do Brasil. E isso inclui os de Joinville. Com quatro museus e um arquivo histórico, entre outras instituições de memória, Joinville é uma das cidades brasileiras que assiste o desmantelamento de seus patrimônios. As unidades que guardam e cuidam do patrimônio cultural estão sucateadas com acervos mal acondicionados, reservas técnicas inadequadas, falta de acessibilidade, edificações mal conservadas e insalubres (infiltrações, enchentes, rachaduras, mofo, instalações elétricas e hidráulicas precárias etc.), quadro técnico de servidores insuficiente e falta de planejamento.

É preciso que os trabalhadores e os jovens tomem para si a defesa do nosso riquíssimo patrimônio, reivindiquem a qualidade e gratuidade do acesso a ele. Pois, em última instância, qualquer modelo que transfira para a iniciativa privada a responsabilidade do Estado pelo oferecimento e manutenção dos serviços públicos é um modelo que propõe a manutenção do enriquecimento dos grandes empresários e banqueiros, condenando a classe trabalhadora e seus filhos à ignorância.

Comentários
  • Luciane Schultz
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    Realmente, o descaso com o Museu Nacional não foi culpa dos trabalhadores, que vinham há pelo menos 10 anos reinvindicando a manutenção do Museu e alertando seus gestores da possibilidade de incêndio. O descaso não é culpa da política de descentralização estatal. Alíás, se a gestão fosse privada, certamente, esta tragédia não teria acontecido. O Museu Nacional estava sob a gestão PÚBLICA da UFRJ, com todos os seus cargos de reitoria e cargos relacionados ligados ao PSOL e PC do B. A mesma UFRJ que era responsável pelo Palácio da Praia Vermelha, incendiado em 2011. Da Faculdade de Letras, incendiado em 2012. Da sua própria reitoria e alojamento de estudantes, incendiando em 2016. Fica claro, que a GESTÃO PÚBLICA deste espaços e a INGERENCIA dos responsáveis é que levaram a estas tragédias e não o teto de gastos. Alíás, foram 16 anos de governos de esquerda e a cultura e educação no Brasil só decaiu. O Brasil figura hoje com os piores índices educacionais do mundo. Cultura no Brasil é algo como a peça Macaquinhos, por exemplo, com marmanjos enfiando o dedo e cheirando no c* uns dos outros. Toda esta degradação cultural, educacional e moral é fruto destes anos. Não é possível culpar o governo Temer (que é um péssimo gestor, mas foi colocado lá pelos PTistas que votaram na Dilma), pelo teto dos gastos (que é o básico: limitar o que se gasta ao quanto se ganha, que até na nossa casa tem que ser assim) e aos empresários (que é quem gera empregos no Brasil, sem os empresários não há empresas, sem empresas não há empregos). E culpar os banqueiros já tá ficando manjado… tá mais fácil arranjar um bode expiatório para pôr a culpa da sua irresponsabilidade, né?

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