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Toda a história da preservação do patrimônio da humanidade e da ciência é perpassada pelos interesses do poder econômico

Toda a história da preservação do patrimônio da humanidade e da ciência é perpassada pelos interesses do poder econômico

O incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, foi uma tragédia anunciada pela brutal redução de verbas para sua manutenção nos últimos cinco anos. Esse era um dos maiores museus de história natural e de antropologia das Américas e a mais antiga instituição científica do Brasil. As chamas que o consumiram após anos de um doloroso abandono vão ficar para sempre na história, como símbolo do que significa, na vida real, as expressões “ajuste fiscal”, “austeridade” e “cortes nos investimentos públicos”. É uma perda para toda a humanidade.

Desde ontem, os candidatos às próximas eleições e atuais governantes têm se pronunciado, culpando-se entre si. Todos lamentam, alguns poucos lembram o corte de verbas, mas nenhum ousa tocar no fato de que 40% do orçamento da União é destinado ao pagamento dos juros da divida pública, ou seja, aos bancos.

Grandes grupos como A Folha de São Paulo e O Globo têm o cinismo de afirmar que não há suficiente participação dos empresários e da “comunidade” na preservação dos monumentos. No entanto, essas próprias empresas não pagam impostos e têm imensas isenções.

O problema do corte de investimentos públicos é mais do que má gestão política e não se restringe ao Brasil. Ele é a consequência de um sistema econômico em crise, que cada vez mais aprofunda a diferença entre umas dezenas de muito ricos e bilhões de explorados, destruindo pelo caminho todo o acúmulo cultural e científico da sociedade.

No berço da humanidade, na Síria, o Estado Islâmico matou o diretor de pesquisa da cidade histórica de Palmira e em seguida destruiu o município, assim como mais treze sítios arqueológicos, inclusive a biblioteca de Mossul, junto a milhares de documentos históricos árabes. Em 2001, os talibãs dinamitaram estátuas do Buda de 1,5 mil anos no Afeganistão. Esses não são apenas conflitos religiosos, como faz parecer a grande imprensa, são principalmente resultados das manobras imperialistas que devastam o Oriente Médio. No Iraque, as próprias tropas dos Estados Unidos saquearam museus, inundando coleções particulares com valiosas peças vindas de lá.

No Brasil, a Reforma do Ensino está fechando escolas, a falta de verbas está fechando universidades, o patrimônio histórico e cultural está se deteriorando, o desenvolvimento da ciência está completamente abandonado. No ano passado, um supercomputador que o país possuía foi desligado por falta de verbas. O local onde se encontra o servidor que fornece internet para praticamente todas as instituições de pesquisa e metade do governo do Rio de Janeiro teve que ter as paredes quebradas pelos técnicos por falta de verbas para consertar o aparelho de ar condicionado.

Em Joinville, os valiosos sítios arqueológicos da área urbana não têm segurança nem a devida exposição de informações à sociedade. Todos os museus da cidade sofrem com sérias dificuldades de estrutura, como infiltração e problemas elétricos. Isso é perceptível a qualquer pessoa que visite o Museu de Imigração, Museu Sambaqui, Estação da Memória, Museu Casa Fritz Alt, Museu de Arte etc. Além disso, em muitas instituições as reservas técnicas – locais onde o acervo não exposto é guardado – estão em desconformidade com os padrões de conservação internacionais.

Toda a história da preservação do patrimônio da humanidade e da ciência é perpassada pelos interesses do poder econômico. Em meio a isso estão os obstinados pesquisadores, que tentam salvar o que podem da sanha do capital. A verdade é que no capitalismo, o lucro é mais importante que o ser humano, a ciência e a cultura. A trágica cena dos funcionários do Museu Nacional no Rio na noite de ontem querendo entrar para tirar algo do incêndio enquanto faltava água nos hidrantes representa bem essa situação.

Nenhum político nem a grande mídia dizem isso, porque todos ainda tentam salvar a legitimidade do sistema e do Estado, bem como das instituições jurídicas, políticas e econômicas. Se as eleições pudessem resolver essa situação, elas certamente seriam proibidas. O povo percebe isso cada vez mais e é por isso que o candidato que está em primeiro lugar nas pesquisas para presidente do país é o “não voto em ninguém”, com as abstenções, nulos e brancos. Está mais do que na hora de a classe trabalhadora tomar o futuro do país em suas mãos, com seus métodos históricos de luta.

Em Joinville, o Sinsej está convocando uma reunião para segunda-feira (3/9), às 19 horas, com os trabalhadores dos museus da cidade. Um protesto será feito no desfile de 7 de setembro, junto ao Grito dos Excluídos, e toda a comunidade está convidada a participar. Os trabalhadores reivindicam dinheiro para saúde, transporte, educação, ciência, cultura e tecnologia. Também a revogação de todas as reformas de Temer, da Emenda Constitucional 95 (corte de investimentos públicos) e o não pagamento da dívida interna e externa. A concentração será em frente ao Sesc, na Rua Itaiópolis, às 9 horas desta sexta-feira.

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